A Psicanálise Aplicada

No trabalho psicanalítico busca-se a possibilidade de resgatar o sujeito como um todo, através de sua fala muitas vezes abafada pelas experiências geradoras de sofrimentos e vivências no dia-a-dia. É da capacidade da escuta na relação terapêutica, no uso da transferência, da associação livre, da atenção flutuante, da interpretação, e do inconsciente, com os chistes, sonhos, atos falhos, que há uma passagem, uma transformação, da situação de alienação para a de consciência crítica resgatada nos modos de pensar, sentir e vivenciar. Assim, se constitui novos modos de experienciar a vida, reconstruindo-se vínculos e compartilhando essa mudança no ambiente em que vive.

 

Apropriar-se da própria vida, dos conteúdos que fazem de cada ser diferente de todos os outros, torna-o enunciador, construtor de valores e desejos que levará consigo nos contatos sociais. Este movimento faz de cada um conhecedor daquilo que possui e o verá cada vez melhor à medida que o elabora em seu trabalho analítico. Esse conhecimento vai, certamente, ser transmitido a outros se constituindo numa construção do saber, da capacidade de pensar e transformar pensamentos.

 

A pesquisa psicanalítica é de grande ajuda (na identificação das condições sociais, ou seja,) nas relações em que o desenvolvimento psíquico e a integração ocorrem. A vulnerabilidade, a dor mental e a capacidade de aprender são universais, não dependem de riqueza, status ou qualificações educacionais.

 

Há, na Inglaterra, no bairro de Hampstead, uma instituição chamada Tavistock, onde os métodos psicanalíticos são praticados e ensinados dentro do Serviço Nacional de saúde, onde os trabalhos terapêuticos executados são assumidos pelo SNS de acordo com uma concepção igualitária de justiça social.

 

Essa instituição liga a visão relacional e o socialismo. O foco relacional afirma que o que importa aos seres humanos é a manifestação das relações amorosas e de confiança com outros – é a base teórica do conceito mais amplo de desenvolvimento humano. Isso tem importância na “arquitetura social” que dá condições para as experiências de socialização primária (na família e em outros lugares), para a socialização secundária (na educação, no trabalho, na comunidade) e para a socialização terciária (no tratamento da doença e do desvio social).

 

Michel Rustin, em seu livro: Psicanálise, Política e Cultura, Editora Imago, capítulo 2, pg.51, diz o seguinte: "a Psicanálise com sua forma de pensamento reconhece que a maioria das pessoas possui aspectos mais ou menos saudáveis ou mais ou menos doentes em suas personalidades, e considera também que esse equilíbrio varia conforme circunstâncias da vida. Isso possibilitou uma visão mais compreensiva e compassiva da doença mental, ao tempo em que aumentou a confiança em seu tratamento”.

 

Duas considerações importantes de Michel Rustin ao colocar em foco a estrutura e a forma de funcionamento da clínica de Tavistock:

 

v  Tornar simples e clara a questão do mais ou menos saudável, pois nos remete a Bion ao postular a presença de maior ou menor número de núcleos psicóticos em todos nós, com a variável da constituição da subjetividade de cada um;

 

v   Chamar a atenção para o fato dos métodos psicanalíticos serem ensinados e trabalhos terapêuticos executados assumidos pelo SNS, portanto, pelo Governo.

 

A presença da Psicanálise, no Brasil, no que se refere às políticas públicas é muito restrita. A despeito do grande número de psicanalistas que hoje transitam pelos dispositivos de atenção à saúde mental, e da enorme abertura que teve a formação psicanalítica nos últimos 25 anos, existem poucos espaços para pensar essas políticas dentro das instituições de formação psicanalítica, o que seria de grande importância.

 

Na verdade, no âmbito público, não é apenas na saúde mental que a psicanálise poderia ter um lugar maior. Sabemos que as instituições de assistência à saúde, em geral, têm como tarefa clínica cotidiana escutar a demanda de seu público, ou seja, dar atenção a uma queixa. O que pontuamos é que já está aí demarcada uma possível confluência com a clinica psicanalítica.

 

No Brasil, portanto, sabemos que é relativamente recente a inserção de psicanalistas nas instituições e serviços de saúde mental, ao contrário do que acontece em países da Europa, e mesmo em países da América Latina, onde existe uma tradição da Psicanálise em instituições públicas e privadas.

 

Entretanto, a Psicanálise tem-se alargado. Movimenta-se no sentido mesmo do desejo de uma sociedade mais justa para todos. Assim, certos que utilizando o conhecimento psicanalítico podemos construir espaços de acolhimento à dor psíquica, àqueles aos quais tanto falta, iniciamos um trabalho de atendimento a uma comunidade que vive profundo desamparo. O local onde nós trabalhamos é o Posto Médico da Casa de Retiro São Francisco, no bairro de Brotas, Salvador-Bahia, Brasil. Recorrem a este lugar em busca do nosso serviço grande número de pessoas, de forma que, atualmente, temos uma lista de espera surpreendente. Buscam o trabalho com muitas angústias, mas, com grandes expectativas. Vários deles andam distâncias enormes para lá chegarem; outros, por vezes vão sem alimento, mas, não faltam às sessões.

 

Esses pacientes, de forma geral, vivem a difícil experiência de serem anônimos e de não serem reconhecidos no campo social. Essa situação vem freqüentemente acompanhada pelo sentimento de humilhação que leva à baixa auto-estima. O mal-estar decorrente dessa vivência é grande, pois gera desesperança, amargura ou deflagra comportamentos violentos e de degradação como forma de alcançar alguma visibilidade ou sufocar a dor.

 

Nosso trabalho tem cinco anos e meio. Fomos convidados pelas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, que residem e trabalham nesta casa de retiro, no sentido de oferecer um acompanhamento psíquico aos que dele necessitam.

 

Entusiasma-nos, sobremodo, percebermos o crescimento, a mudança das pessoas em terapia psicanalítica. A força conseguida através da elaboração da dor, do sofrimento, os faz aos poucos transformar a própria realidade interna enquanto influenciam o ambiente em que vivem.

 

A singularidade de cada ser é única. Vemos como sua subjetividade é composta por todas as relações que estabelecem em suas existências. Não podemos deixar de considerar o ser humano como criativo, em constante transformação, e que (se) conhecendo a si próprio, vai agir mudando sua história, convertendo e interferindo no processo social e cultural.

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