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Embora imersos em toda essa
situação social, o desejo nos põe a caminho em
busca de saídas, ainda que saibamos o quanto é
difícil, penoso e longo. Mas, não temos pressa!
O que nos move é continuar acreditando nos
valores democráticos, no valor da vida, no
respeito à individualidade e no direito à
liberdade.
Voltamos aos primórdios da
psicanálise, lembrando que, em Viena, Ana Freud
e um grupo de colegas trabalharam no atendimento
a crianças órfãs ou carentes. Na Inglaterra, na
época da guerra e no pós-guerra vários outros
psicanalistas realizaram trabalhos voluntários e
desenvolveram pesquisas. Entre eles, Bion, com
grupos; e Spitz, sobre hospitalismo e Winnicott
com crianças separadas de suas famílias durante
a 2° Guerra Mundial.
Freud já havia postulado seu
interesse pela psicologia das massas e pelas
inter-relações indivíduo-sociedade. Em pelo
menos cinco dos seus trabalhos encontramos: a
subjetividade humana é gerada no seio de uma
cultura e vice-versa. Escreve sobre os fenômenos
psicológicos que se processam nos grupos, nos
sistemas sociais e na formação da cultura. "As
perspectivas futuras da terapia psicanalítica,
1910; Totem e Tabu, 1913; Psicologia das Massas
e Análise do Ego, 1921; O Futuro de uma Ilusão,
1927; e Mal-estar na Civilização, 1930."
Assim como Freud, Bion, desde
seus primeiros passos no campo do psiquismo
humano, trabalhou e valorizou, sobremodo, os
aspectos acima referidos. Bion concordava com
Aristóteles, sintetizado na frase: "O Homem é um
animal político, e, assim sendo, não pode
realizar-se fora de um grupo, tão-pouco,
satisfazer qualquer impulso, não só sexuais,
mas, também, os narcísicos, sem que os
respectivos componentes emocionais se expressem
em relação com outras pessoas" Zimermann, David
- Bion da Teoria à Prática, Ed. Artmed, cap.8,
pg.115).
Em Psicologia das massas,
Obras completas, vol. XIII, cap. I, Freud diz o
seguinte: "Na vida anímica individual aparece
integrando sempre, efetivamente, o outro como
modelo, objeto auxiliar ou adversário e, deste
modo, a psicologia individual é ao mesmo tempo e
desde em princípio, psicologia social em um
sentido amplo e plenamente justificado".
Como em outras, esta
afirmação de Freud levanta uma questão
importante: É possível uma psicologia que não
envolva ou que não esteja imersa no social? Faz
sentido conceber-se um indivíduo isolado do seu
contexto social?
Responder a esta indagação
perspassa o processo de divisão em
compartimentos as diferentes disciplinas – das
ciências humanas e sociais. A partir de uma
perspectiva de dicotomia entre o individual e o
social, coube a psicologia o estudo do indivíduo
e a sociologia o estudo da sociedade.
Entretanto, a constatação da
impossibilidade de estudar o homem como um ser
isolado, conduz ao desenvolvimento de teorias e
métodos para explicar a influencia dos fatores
sociais sobre processos psicológicos.
Assim ao ligar-se a
Psicanálise (Psicologia profunda como afirmava
Freud), ao social se vai além da simples
assertiva de um “ser humano no social”, com base
na convicção de que não há possibilidade do
humano sem ser no social. Isto é poder assumir,
dentro do que é específico de cada forma de
pensamento, incluindo a Psicanálise, a natureza
histórica-social do ser humano. Desde o
desenvolvimento infantil até as patologias, as
técnicas de intervenção devem ser analisadas à
luz dessa concepção do ser humano. O que fica
claro é de não se poder conhecer qualquer
comportamento humano isolando-o, fragmentando-o,
como se existisse em si e por si.
Quando juntamos a Psicanálise
ao social acreditamos estar no caminho capaz de
responder à questão de como o homem é sujeito da
história e transformador de sua própria vida e
da sociedade.
Jurandir Freire, ao falar
dessa ótica, diz: "Toda Psicanálise, num certo
sentido é social, entendendo-se o adjetivo,
social, como inscrição na cultura das questões
tratadas pela teoria."
Importa-nos, pois, que a
atitude do psicanalista expanda-se numa ação
voltada para a cidadania, sendo esta entendida
enquanto possibilidade de os indivíduos
apropriarem-se de todas as possibilidades de
realizações humanas, abertas pela vida social,
em cada contexto determinado historicamente.
Porem, no engajamento e na preocupação em
entender e, sobretudo, em transformar as
circunstâncias no exercício da Psicanálise,
ultrapassando as fronteiras da clínica privada e
da reflexão psicanalítica pura, a partir do
pensamento freudiano.
Na atitude, pois, dos
psicanalistas que incluem em seu trabalho uma
ação privada pela preocupação em evitar toda e
qualquer forma de discriminação, está a oposição
aos processos de exclusão social. O que se
deseja é um comprometimento assim como um
projeto de realidade que reivindica para todos
uma vida mais digna de ser vivida.
Existe uma idéia muito
presente no imaginário social de que a
Psicanálise está posta para a elite. Há, porém,
um reconhecimento daqueles com os quais
trabalhamos do resgate de sua história, de sua
própria construção, levando-nos a uma
operacionalização não somente como aplicadores
de uma técnica, mas, como fazedores de
conhecimento e produtores de novos modos de
saber.
Pensamos ser muito importante
nos manifestarmos a respeito do nosso perfil
profissional. Mostrarmos o quanto é possível
falarmos sob a ótica da saúde e do
desenvolvimento humano. A convicção de que nosso
trabalho é uma ferramenta de importância
fundamental na transformação e diminuição dos
desajustes, que tornam, tantas vezes, a vida
insuportável, paralisando o sujeito na
contribuição que faz do seu viver a sociedade.
A Psicanálise poderá, com
certeza, ajudar a compreender mecanismos que se
dão no interior de cada sujeito, controlado por
forças inconscientes, trazendo seus conteúdos
para o consciente, re-significando-os, com a
finalidade de torná-los capazes de serem agentes
transformadores no seu ambiente.
Sabemos que o inconsciente
não pode ser separado do homem e sua
conscientização é admitida como indispensável
para o bem-estar de todos. Comparando a miséria
neurótica com a tuberculose, Freud afirmou que a
primeira não é menos fatal, que a segunda,
expressando sua esperança de que um dia a
sociedade se convenceria disso. |