O Social

É crescente o interesse de psicanalistas na busca de caminhos que minimizem a exclusão social. A reflexão sobre a subjetividade aliada ao trabalho no consultório e na clínica do social nos leva a seguinte constatação: nossa prática se transformará inevitavelmente. Somos chamados a participar de maneira radical. Nossa tarefa não será apenas estar com nossos pacientes, mas ser com eles, compartilhando sonhos que dêem conta do viver.

Valdira Cova Martins

Membro Efetivo

Sabemos que um dos indicadores sociais gritantes de nossa sociedade, é o índice de pessoas excluídas do atendimento das necessidades básicas fundamentais, visto também pela psicanálise em seus efeitos mais deletérios.

 

Cremos na possibilidade de empreendermos esforços no sentido de não só compreender as condições de produção da miséria, mas também da diversidade de conflitos específicos e atuais.

 

Partindo daí na tentativa de interpretações e explicações para o fenômeno pobreza, miséria, não apenas com analises que privilegiem o político, o econômico e o social, mas considerando, sobretudo, a importância da visão subjetiva e psíquica provocada pela condição da miséria, de forma decisiva na construção da subjetividade dos sujeitos.

 

Pesquisando sobre os agudos problemas sociais, recorremos a estudos tradicionais sobre: pobreza, exclusão social, miséria e seus subprodutos. Damo-nos conta do quanto ali prevalecem apenas análises econômicas, sociais e políticas com explicações miraculosas de traços preconceituosos que ajudam a banalizar a questão da pobreza numa região, estado ou país, o que dificulta uma compreensão maior, mais ampla do fenômeno. Encontramos um texto elaborado por Derrida (2001, p.83) dentre suas afirmações, uma, que aponta a inclusão do saber psicanalítico como indispensável nos discursos que regem o social.

 

Vivemos a globalização e uma sociedade de mercado neoliberal que não se interessa, em absoluto, pelo que vem produzindo de pobreza e miséria, cujo subproduto expressa a agressividade e a violência. Ponto-de-vista este, perverso, que mostra como interesse dos globalizadores, usufruir vorazmente tudo o que as classes pobres podem oferecer. Só os vê, entretanto, quando seus interesses (negócios ou vida) são, de alguma forma, afetados. Enfim, o que vivemos na contemporaneidade são transformações intensas, que vêm alterando o mundo do trabalho, o cotidiano das pessoas, as estruturas da constituição familiar, falta de referências que vão desnorteando a identidade dos sujeitos. Os referenciais de vida social, nesses tempos, tornam-se cada vez menos claros, e são acrescidas novas exigências a cada um. Dessa forma, aumenta o pânico, a angústia, o desespero, que geram o aumento crescente da agressividade nas relações.

 

As subjetividades têm-se construído, portanto, submetidas a tantas metamorfoses, que não é possível delinear, com, pelo menos, um mínimo de segurança: valores, hábitos, padrões. Não podemos deixar de lembrar o desenvolvimento tecnológico que traz, por um lado, avanço em várias áreas, grande volume de informações, por outro, a perda dos limites que norteiam a vida.

 

A globalização nos põe de frente com sua contribuição; não só para o aumento da agressividade na sociedade, mas, também, na mídia, que trabalha, na maioria do tempo, em cima da banalização da violência e da exposição absurda do sofrimento ou do ridículo, de forma a oferecer espetáculo.

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