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Há mais de cem anos, em 30 de março de 1882,
nasceu em Viena Melanie née Reizes (1882-1960),
futura Melanie Klein, psicanalista britânica de
origem austríaca. Seu pai, Moritz Reizes, era um
médico judeu polonês, originário de Lemberg, na
Galícia, que se tornou clínico geral graças a
uma ruptura com pais tradicionalistas. Sua mãe ,
judia eslovaca brilhante, dedica-se, por
necessidades familiares, ao comércio de plantas
e répteis, cuja família, erudita e culta, era
dominada por uma linhagem de mulheres.
Melanie Klein, pouco desejada, foi a quarta
entre os filhos desse casal que não se entendia.
Quando, por sua vez, se tornou mãe, também
sofreria em sua vida particular as intrusões de
sua mãe, Libussa, personalidade tirânica,
possessiva e destruidora. A juventude de Melanie
foi marcada por uma série de lutos, muitos
provavelmente responsáveis pela culpa, cujos
vestígios se encontram em sua obra teórica.
Tinha quatro anos quando sua irmã Sidonie morreu
de tuberculose com a idade de 8 anos; tinha 18
quando o pai, debilitado há longos anos, morreu,
deixando-a com a mãe; tinha 20 quando seu irmão
Emmanuel, que a influenciara muito e a quem
estava ligada por uma relação de tons
incestuosos, morreu esgotado pela doença, pelas
drogas e pelo desespero. Phyllis Grosskurth
observou que Melanie se casou pouco depois desse
falecimento, pelo qual se sentia culpada, o que,
acrescentou, “provavelmente tinha sido o
objetivo perseguido por Emmanuel”.
Klein estudou de início arte e história na
Universidade de Viena, porém as dificuldades
econômicas que se seguiram à morte do pai
parecem ter sido a causa de sua renúncia aos
estudos de medicina, que ela decidira empreender
com o objetivo de ser psiquiatra. Essas mesmas
dificuldades explicariam igualmente seu
casamento precipitado, em 1903, com Arthur
Klein, engenheiro químico de caráter sombrio,
que ela conhecera dois anos antes, que por força
de suas atividades profissionais era obrigado a
muitos deslocamentos o que possibilitou a
Melanie aprender muitas línguas estrangeiras e
do qual se divorciaria em 1926.
Em 1910, por insistência de Melanie,
cronicamente deprimida, o casal, cujo
desentendimento era alimentado pelas incessantes
intervenções de Libussa, se fixou em Budapeste.
Em 1914, sua mãe morreu e nasceu seu terceiro
filho, Erich Klein (futuro Eric Clyne), que ela
analisaria, como Hans e Melitta, o irmão e a
irmã mais novos. Mas esse ano de 1914 foi também
o de sua primeira leitura de um texto de Sigmund
Freud, “Sobre os sonhos”, e do início de sua
análise com Sandor Ferenczi. Essa análise foi
interrompida devido à guerra. Ela recomeça, em
1924, mas em Berlim, com K.Abraham, que morreria
no ano seguinte. A análise é concluída em
Londres, com S.Payne.
Melanie Klein logo começou a participar das
atividades da Sociedade Psicanalítica de
Budapeste, da qual se tornou membro em 1919.
Antes, em 28 e 29 de setembro de 1918, sob a
presidência de Karl Abraham, o V Congresso da
International Psychoanalytical Association (IPA)
se realizou nessa cidade, que Freud considerava
como o centro do movimento psicanalítico. Era a
primeira vez que Melanie Klein via Freud.
Escutou-o ler, na tribuna, sua comunicação “Os
novos caminhos da terapêutica psicanalítica” e,
fortemente impressionada, tomou consciência de
seu desejo de se consagrar à psicanálise. Em
julho de 1919, levada por Ferenczi, apresentou,
diante da Sociedade Psicanalítica de Budapeste,
seu primeiro estudo de caso, dedicado à análise
de uma criança de cinco anos, que na realidade
era o seu próprio filho Erich. Uma versão
reformulada dessa intervenção, na qual ela
dissimulou a identidade do jovem paciente
chamando-o de Fritz, constituiu seu primeiro
escrito, publicado no “Internationale
Zeitschrift für Psychoanalyse”. Um ano depois,
uma terceira versão desse trabalho apareceu em
“Imago”: “A criança de que se trata, Fritz,
escreveu ela, é um menino cujos pais, que são de
minha família, habitam na minha vizinhança
imediata. Isso permitiu encontrar-me muitas
vezes, e sem nenhuma restrição, com a criança.
Além do mais, como a mãe segue todas as minhas
recomendações, posso exercer uma grande
influência sobre a educação de seu filho.”
O terror branco e a onda de anti-semitismo que
assolava Budapeste depois do fracasso da
ditadura comunista de Bela Kun (1886-1937)
obrigaram os Klein a deixar a capital e a
exilar-se. Em 1920, Melanie Klein participou em
Haia do Congresso Internacional da IPA. Ali,
encontrou Hermine von Hug-Hellmuth e
principalmente, graças à recomendação de
Ferenczi, Karl Abraham. Este acabava de fundar,
com a ajuda de Max Eitingon, a famosa
policlínica do Berliner Psychoanalytisches
Institut (BPI), onde eram acolhidos muitos
pacientes traumatizados pela guerra. Atraída
pela personalidade de Abraham e pela vitalidade
do grupo de analistas que o cercava, Melanie
Klein se instalou, em 1921, na capital alemã. Um
ano depois, tornou-se membro da Deutsche
Psychoanalytische Gesellschaft (DPG) e, em
setembro de 1922, assistiu ao VII Congresso da
IPA, durante o qual participou das primeiras
discussões sobre a questão da sexualidade
feminina, depois da contestação das teses
freudianas por Karen Horney.
Em Londres, Melanie Klein experimentou suas
teorias, tratando filhos perturbados de alguns
de seus colegas: o filho e a filha de Jones, por
exemplo. Sua personalidade invasiva provocou à
sua volta paixões e repulsas. Em março de 1927,
Anna Freud fez uma comunicação ao grupo
berlinense da DPG. Na verdade, tratava-se de um
verdadeiro ataque contra as teses kleinianas em
matéria de análise de crianças. Houve críticas e
Freud irritou-se. A discordância entre ambas não
parava de crescer, referindo-se especialmente à
oportunidade da análise de crianças: parte
integrante da educação geral de toda criança,
afirmava Melanie Klein; necessária apenas quando
a neurose se manifesta, replicava Anna, que
circunscrevia a análise de crianças apenas à
expressão do mal-estar parental, enquanto
Melanie autonomizava a criança, tanto em sua
demanda quanto no tratamento.
Em setembro de 1927, durante o X Congresso
Internacional em Innsbruck, o conflito se
ampliou: Klein apresentou uma comunicação, “Os
estádios precoces do conflito edipiano”, na qual
expunha explicitamente suas discordâncias com
Freud sobre a datação do complexo de Édipo,
sobre seus elementos constitutivos e sobre o
desenvolvimento psicossexual diferenciado dos
meninos e das meninas. Em outubro de 1927,
apoiada pela renovada confiança de Jones,
Melanie foi eleita para a BPS.
As idéias de Melanie Klein suscitaram fortes
oposições, que tomaram uma amplitude
considerável com a chegada na Inglaterra dos
psicanalistas expulsos pelo nazismo, entre os
quais A. Freud e E. Glover, que consideravam
suas idéias meta psicológicas uma heresia
idêntica às de Jung e Rank.
Em 1932, Melanie Klein publicou sua primeira
obra síntese, “A psicanálise de crianças”, na
qual expunha a estrutura de seus futuros
desenvolvimentos teóricos, sobretudo o conceito
de posição (posição esquizo-paranóide/posição
depressiva), assim como sua concepção ampliada
da pulsão de morte. Mas, nesse mesmo ano, que
inaugurou um aparente período de calma
institucional para ela, sua vida particular foi
perturbada por conflitos que teriam, alguns anos
depois, pesadas repercussões em sua vida
profissional. Sua filha Melitta Schmideberg,
casada com Walter Schmideberg, amigo da família
Freud e de Ferenczi, tornou-se analista. Sem
perceber, Melanie repetiu com sua filha o
comportamento que Libussa tivera com ela. Foi
por ocasião de uma retomada da análise com
Edward Glover que Melitta se afastou de Melanie.
Logo seria publicamente apoiada em sua atitude
por seu analista, que não hesitou em manipular
as tensões familiares para reforçar suas
próprias posições teóricas diante de Melanie.
Em novembro de 1946, depois de intermináveis
negociações, marcadas principalmente pela
demissão de Edward Glover, um “laady’s agreement”
se produziu – mas que nem sempre foi
respeitado-, resultando na institucionalização
de uma divisão da BPS entre kleinianos,
annafreudianos e independentes.
Em 1995, Melanie Klein, que nada perdera de seu
dinamismo e de sua agressividade, interveio de
maneira esmagadora no Congresso da IPA em
Genebra, apresentando uma comunicação intitulada
“Um estudo sobre a inveja e a gratidão”, na qual
desenvolvia o conceito de inveja, que articulava
com uma extensão da pulsão de morte, à qual dava
um fundamento constitucional. Ao fazer isso,
reatava com aquele que sempre considerara o seu
mestre, Karl Abraham. Melanie Klein acabava
assim de dar partida a uma nova controvérsia,
que, se não teve a amplitude das precedentes, a
levou à ruptura com Winnicott e com Paula
Heimann, que fora a mais inteligente e a mais
ardorosa dos adversários de Glover em 1943.
Nunca tendo se reconciliado com sua filha
Melitta, deixando inacabada uma autobiografia
parcelar e seletiva, Melanie Klein morreu de
câncer do cólon em Londres, a 22 de setembro de
1960.
Diferentemente de A. Freud, Melanie Klein
considerava o brincar como um material
suscetível de interpretação no quadro da
situação transferencial. As brincadeiras eram a
seu ver equivalentes às fantasias, dando acesso
à sexualidade infantil e à agressividade: em
torno delas podia se instaurar uma relação
transferencial-contratrasferencial entre a
criança e o analista.
Melanie Klein conferiu lugar capital à pulsão de
morte, conceito que no entanto estava longe de
gozar de unanimidade no seio do mundo
psicanalítico. Radicalizando a posição de Freud,
fez da angústia a conseqüência direta da ação da
pulsão de morte no seio do organismo. Essas
considerações estavam também presentes em sua
concepção das fases ou posições por que a
criança passava: a posição esquizoparanóide, que
traduziria o modo de relação dos quatro
primeiros meses da existência, seria
caracterizada por uma união entre as pulsões
sexuais e as pulsões agressivas, por um objeto
vivido como parcial e clivado em “bom” (gratificador)
e “mau” (frustrador). “Na posição
paranóide-esquizóide” , escreve Hana Segal, “a
angústia dominante provém do temor de que o
objeto ou os objetos persecutórios penetrem no
eu, esmagando ou aniquilando o objeto ideal e o
“self”. Dois mecanismos psíquicos seriam
dominantes nessa fase: a introjeção e a
projeção. Instalando-se por volta dos quatro
meses, a posição depressiva se seguiria à
posição paranóide, sendo por sua vez superada
por volta do final do primeiro ano. O objeto já
não é parcial, podendo ser apreendido pela
criança como total, a clivagem “bom”-“mau” já
não é tão categórica como outrora, a angústia é
de natureza depressiva e está ligada ao temor de
perder e de destruir a mãe. Em face de suas
angústias, a criança desenvolve vários tipos de
defesa e de atividades reparatórias, que
constituem a primeira fonte da criatividade e da
sublimação. A posição esquizoparanóide e a
posição depressiva voltam a se fazer presentes
posteriormente na vida, em especial no adulto
acometido de paranóia, de esquizofrenia ou de
estados depressivos.
A Grã-Bretanha, sua última pátria, conforme
mencionamos acima, acolheu-a em 1922. A partir
desse momento, e durante trinta e quatro anos, a
vida de Melanie Klein foi completamente ligada à
psicanálise, às atividades da Sociedade
Britânica e ao movimento internacional. Em 1960,
às vésperas da morte, ela ainda estava dando
instruções sobre seu último manuscrito e aos
alunos que tinha em formação. Estava com 78
anos.
Somente os netos conseguiram realmente distrair
Melanie Klein da parcela de desumanidade- de
genialidade, diriam outros- que ela reconhecia
ter em si. Virginia Woolf deixou em seu “Diário”
um retrato de Melanie Klein que permite entrever
sua força, de outro modo silenciosa e invisível:
ela era “uma mulher de caráter, com uma espécie
de força meio oculta- como direi ?-, não uma
astúcia, mas uma sutileza, alguma coisa
trabalhando por baixo. Uma tração, uma torção,
como uma vaga sísmica: ameaçadora. Uma mulher
encanecida e brusca, com grandes olhos claros e
imaginativos”.
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